quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Autobiografia ou qualquer coisa equivalente.

Eu não nasci para ser herói,
Eu não nasci para nada grande.
Eu nasci para a miserabilidade,
Nasci para qualquer coisa,
Contanto que seja pouca.

Criei um império melancólico,
Mas império esse de castelos de areia
Ou qualquer coisa cliché.
Como os sonhos que tive, que foram diversos.
Mas esses sonhos foram devorados
E hoje alguém os digere.

Não, nunca tive ninguém,
Nem ninguém me teve,
Muito embora eu me oferecesse.
Pois até mesmo meu único caso de amor,
Foi um caso sem amor.
Ela sabia que a forma certa de amar
Era não termos de tocar um ao outro.
Ela entendia que a ausência
Apenas fortalecia a nossa relação.
Até o momento em que alguém lhe mostrou
O que realmente era amor,
E agora ela está lá fora,
Vivendo, amando, sentindo.
Sem mim, é claro.

Hoje nem sei o que sou,
Sei que não sou nada que valha,
Pois isso é tudo que sei.
Não sou herói, não sou amado,
Disseram uma vez que eu era gênio,
Mas só haveriam de estar brincando.
Até porque eu jamais quis ser gênio
E não sei onde eu teria errado
Para que eu pudesse ser um.

Acredito ser poeta, e só.
Apesar da ânsia comum por se etiquetar,
Poeta e só poeta.
Sem mim as pessoas vivem,
Mas preferimos não tentar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Vômito.

Não é a náusea, querida,
Que convence alguém do teu asco,
E sim a tua reação, tua repulsa,
Então não digas que estás prestes a vomitar,
Mostre que estás prestes a vomitar.

Do mesmo jeito que o só dizer que me amas
Não me convencerá desse amor.
Tens de mostrar o amor, batalhar por esse amor,
Fazer todas as demonstrações públicas de afeto,
E se for preciso, vomitá-lo sobre mim.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O poeta que escreveu sobre amor.

O poeta que escreveu sobre amor
Não se eternizou, não foi o maior de todos.
Pois todos pensam ser os maiores
Aqueles que cantaram heróis,
Ou aqueles que abriram mentes,
Ou mesmo os que escreveram com perfeição.

Mas o poeta que escreveu sobre amor
Foi o maior dos poetas,
Ao menos em sua própria opinião.

Pois o poeta que escreveu sobre amor
Mesmo que o único herói que ele tenha eternizado
Tenha sido ele mesmo,
Ou que tenha escrito coisas que não foram visionárias,
Ou mesmo que seus poemas desconheçam a métrica.
Escreveu o que mais deveria ser lido.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Querida, tenho de te contar a verdade:
Eu possuía potencial para ter sido tantas coisas
Mas não quero, não tenho a mínima vontade.

Eu sei, pensas que fracassei,
Não é verdade, eu apenas desisti,
Fracassar e desistir são coisas nada iguais.

Sou um niilista em potencial, meu bem.
Sou igualmente um suicida em potencial.
Mas nada disso me satisfaz, por isso sou nada.

Certa vez disseram-me que escrevo belos poemas,
Não creio nisso, não, nem um pouco,
Mas para não correr o risco, é por isso que pouco escrevo.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Ressaca.

Eu sei, prometi que jamais beberia,
Mas por vezes eu deveria pensar duas vezes.

Pois se eu bebesse, meu bem,
Eu não teria sido tão malvisto.
Se eu bebesse eu teria tido iniciativa,
Se eu bebesse eu não teria medo,
Se eu bebesse não seria só o álcool que eu beberia,
Mas também o teu amor.

Sim, querida, como eu me embriagaria,
Como eu me perderia em ti,
Apesar de todas as promessas
De sobriedade mútua
E de todo o desprezo alcoólico.

Mas não bebi,
Nem bebo,
E nem pretendo beber.

Mas não te possuí,
Nem te tenho agora,
E acho que jamais a terei.