terça-feira, 29 de novembro de 2011

Vidro.

Tenho de contar, bons amigos,
Essa triste história de um garoto.
Bom moço, mas feito de vidro.

Tinha um coração cristalino,
Assim como ele era por inteiro.
Ó, pobrezinho do vítreo menino.

O garoto de vidro estava apaixonado,
Estava tão perdidamente em amores
Que quando a via ficava apenas líquido.

Ainda assim a garota não o via,
Tentou ser laminado, temperado,
Encheu-se de corantes, mas não servia.

Ainda assim o garoto sofria,
Tentava viver sem ela,
Mas ao vê-la sempre se destruía.

Por fim ele partiu.
Ele nunca mais poderá vê-la,
Ela nunca o viu.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Mulher.

Outrora perguntaram-me
"Por que temos tão poucas poetisas?"
E eu então ia respondendo
Que não sei ao certo,
Mas que deve ter relação com o facto
De que as mulheres não tinham voz,
Que apenas viviam dentro de casa,
E que o pensar era apenas para os homens.

Mais tarde fui escrever um poema
E tive uma luz.
Não temos tantas poetisas
Por um simples facto:
O homem não presta, meu Deus,

Não temos poetisas
Pois elas não tem motivo de escrever.
Por que escreveriam para um homem bruto,
Para um homem que faz apenas ser troglodita?
Pois até mesmo os mais sentimentais
E os mais poéticos dos homens
Não deixam de ser homem.
E o homem não presta.

Por outro lado, o homem tem motivo para escrever,
O homem tem a mulher, e isso basta.
Por que não escreveria sobre aqueles cabelos
Ondulantes feito galhos e folhas ao vento?
Por que não escreveria sobre aqueles lábios
Rubros feito a rosa mais vermelha do bosque mais florido?
Por que não escreveria sobre aqueles olhos
Verdes como os jardins onde nos deitáramos?
E esse teu corpo, corpo tão delicado,
Cuja beleza eu jamais poderia profanar.

O homem escreve para ter coisas belas.
O homem cria a poesia.

A mulher não precisa escrever, é por si só belíssima.
A mulher é a poesia.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Princesa.

Ó, minha desastrada princesa.
Não hei mais de escrever-te belas frases.
Eu ia dedicar uma epopeia à sua beleza,
Mas de que adiantaria?

Ó, minha sorridente princesa.
É esse teu sorriso, querida,
É esse teu sorriso com certeza,
Que leva-me a esse céu tão infernal.

Ó, minha doce princesa.
Se lesses meus poemas,
Sentirias essa chama acesa,
Ou não acreditarias em todo esse fervor?

Ó, tão não minha princesa.
Quem dera ser eu quem alegra-te tanto,
Ser teu amor, tua defesa.
Ou no mínimo, falar-te tudo isso.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O futuro.

Eu não quero ser alguém para a sociedade,
Não mesmo, muito obrigado.
Eu dispenso o ser alguém notável,
O fazer alguma grande contribuição à vida.

Eu queria apenas ser alguém para ela,
Apenas isso.
Queria ser tudo para ela.

Eu não quero viver até os noventa anos,
Morrer e ser chorado por todos,
E, depois disso tudo, ser lembrado por séculos.

A mim seria formidável morrer aos vinte e três,
Desde que vivesse estes últimos cinco anos ao lado dela.

Não preciso tornar-me um grande homem,
Para o inferno com o Sr. Doutor Lucas Otávio,
Renomado literato e grande escritor.
Para o inferno.

Não quero que ao citarem Lucas Otávio
Ela diga "Acho que conheço esse escritor, estudei com ele quando jovem."
Quero que ao citarem Lucas Otávio
Ela diga "Que é que tem o meu amor?"

Tenho um milhão de sonhos, não sei se os realizarei.
Tenho um milhão de sonhos, mas os trocava por apenas um maior que todos.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Não acabaremos juntos.
Pronto, é essa a verdade,
Sem maquilhagem, sem adornos.
Não és minha,
Eu não sou teu, e tu sequer quererias.

A verdade - a triste verdade - é simples:
Tu e eu não formamos um nós,
Tu e eu não somos nem tu e eu, para começar,
Pois para usar o tu eu teria de estar a falar contigo directamente,
E não estou.
Na realidade, falei contigo - hei de insistir no tu,
Apesar de saber que é errado - pouquíssimas vezes.

Não me amarás como eu te amo, eu bem sei,
Não me amarás jamais, e eu aceito isso.
Não há mesmo um motivo para me amares, eu entendo.
Sou todos teus sonhos juntos, mas invertidos,
É uma pena perceberes que não nascemos um para o outro.

Não me amas e estás certa, minha querida,
E nem vejo por que alguém me amaria.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Metarromance.

Não, nunca fui de misticismos.
Não acredito em deus
Ou em vida após a morte.
Em coisas imaginárias de toda sorte.

Mas por vezes juro sentir
Que sentes este meu amor.
Mesmo estando assim tão longe
Mesmo sendo assim não minha.

E eu só queria saber
Se sentirás este poema,
Se ouvirás estas palavras,
Mas cá fico, a perguntar-me.

Ouves, princesa,
Meus clamores?
Acreditas, querida,
Em meu amor?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Racionalismo.

Outrora estava a pensar no amor,
No que eu sinto por ti
E no porquê não sentes nada por mim.

Mas foi justamente aí que entendi tudo:
Amor não é algo que exige raciocínio,
Não tenho de pensar se me amas,
Ou se deverias me amar.
Devo amar-te apenas,
Sem querer nada em troca,
Sem pensar se mereço teu amor.
Pois se eu te amar verdadeiramente,
Decerto que esse amor será retribuído.